Os Grandes Desafios da Auditoria

Vítor Manuel Mendes Santos DFK Portugal

Entrevista a Vítor Santos | Partner da DFK 
Lisboa 26 de novembro de 2018

1. Os grandes desafios do setor?

O mercado continua a privilegiar demonstrações financeiras auditadas em detrimento de demonstração financeiras não auditadas, consequentemente o auditor e a auditoria constituem um pilar de confiança para os agentes económicos. O principal desígnio que se coloca às organizações de auditoria e consequentemente aos auditores e reguladores é o de aumentar ainda mais a confiança no mercado, criando um contexto de negócios mais favorável e mais transparente que permita às economias desenvolverem-se com maior solidez, beneficiando assim, a sociedade em geral. O caminho deste desígnio terá necessariamente de ser alicerçado em pilares de qualidade e de confiança num contexto regulatório cada vez mais exigente e por vezes complexo.
Na atualidade, os grandes desafios que se colocam ao setor são (i) conhecimento mais abrangente do negócio dos clientes que permitam análises mais profundas, (ii) maior agilidade e eficiência nas comunicações do auditor quer internamente quer nas comunicações dirigidas aos órgãos internos das sociedades quer ao nível dos relatórios de auditoria e por último (ii) novas e inovadoras abordagens do trabalho suportadas por tecnologia.
Estes desafios colocam-se a todas as empresas de auditoria que atuam no mercado independentemente da sua dimensão, contudo atendendo à tipologia de clientes as empresas de auditoria de maior dimensão terão um papel preponderante na liderança das mudanças que já se encontram em curso.
A crescente exigência regulatória da profissão, o alargamento de competências dos auditores, o recurso a especialistas, a auditoria baseada nos riscos de controlo em detrimento de uma auditoria tradicional virada para o passado vão exigir elevados investimentos na criação de recursos competentes e no reforço de formação bem como na adoção de sistemas tecnológicos de suporte aos trabalhos de auditoria, apenas ao alcance das grandes empresas internacionais de auditoria. A realização destes investimentos constitui um grande desafio para as pequenas e médias empresas de auditoria porque se pressupõe que essas empresas consigam uma dimensão ajustada que permita economias de escala para a realização dos referidos investimentos. Decorrente desta situação será muito provável que se assista no médio e longo prazo a uma necessidade crescente de concentração, por parte dessas empresas, em atividades de auditoria e diversificação para outras atividades relacionadas nomeadamente atividades de consultoria económica e financeira, sistemas de informação, validação fiscal, entre outras.

2. O que pretendem os clientes?

O velho tema do “Expectation Gap” entre o que o auditor entrega e o que os agentes económicos, que lidam com os dados fornecidos pelas auditorias querem, continua a existir. Para minimizar este gap é necessário entregar informações completas, atualizadas e divulgadas mais atempadamente.
Os utilizadores de informação auditada esperam que os auditores sejam mais proativos e mais prospetivos. A expectativa é de que os auditores incorporem inteligência de negócios e tecnologias às suas obrigações cada vez mais regulamentadas indo muito além das análises retroativas às demonstrações financeiras.
Estas expetativas também são diferenciadas em função da dimensão dos clientes e consequente complexidade ao nível dos seus modelos de governação.
A divisão do mercado em Entidades de Interesse Publico (EIP) e Entidades de Não Interesse Público (ENIP) e adoção de modelos distintos do conteúdo dos relatórios de auditoria e consequentes procedimentos de supervisão são também consequência das exigências dos utilizadores da informação auditada.
Ao nível das pequenas e médias empresas a auditoria tem um papel relevante na profissionalização dos negócios dos seus clientes na medida em que constitui um contributo na melhoria dos sistemas de controlo interno das operações e em matérias relacionadas com o reporting de informação, quer ao nível da gestão quer nível da exigência dos normativos contabilísticos. Neste segmento os donos das sociedades – que na maioria são também os gestores das mesmas – têm a expetativa de que o auditor vá além da emissão da Certificação Legal das Contas a que estão obrigados pela via regulamentar.

3. Que balanço fazem das novas regras que entraram em vigor a nível europeu há dois anos e do papel que a CMVM tem desempenhado como supervisor do setor?

Na minha opinião o balanço é positivo uma vez que o novo normativo do setor apresenta-se como uma evolução regulamentar do exercício da profissão de auditor, tornando-se mais exigente em matérias como a independência, o ceticismo profissional, o relato, a prestação de serviços distintos de auditoria, a supervisão, o controlo de qualidade, o regime sancionatório e as auditorias a EIP.
As alterações provocadas pela entrada em vigor do novo quadro jurídico de auditoria tiveram impactos diferenciados nos diferentes intervenientes do sector que variam de acordo com a sua organização, dimensão, nível estrutural e fundamentalmente clientes-alvo EIP e ENIP tendo as sociedades de auditoria e os auditores necessidades de se adaptarem a uma nova realidade com maiores e mais complexos desafios para ultrapassar.
No que respeita às grandes empresas de auditoria, nomeadamente as Big Four salienta-se a questão relacionada com as novas regras de rotação de auditores (aplicáveis apenas a EIP). A concentração da grande maioria deste tipo de sociedades no âmbito das grandes empresas internacionais de auditoria, aliado ao aumento de trabalho e de meios necessários que uma auditoria a estas entidades obriga, implica que essa mesma rotação, dificilmente saia do perímetro das Big Four.
No que se refere às empresas do segmento médio de auditoria os maiores desafios são colocados, por um lado ao nível da resposta dada por essas sociedades ao aumento dos padrões de qualidade exigidos pelo novo normativo e por outro ao aumento da competitividade de mercado. Os honorários de auditoria no setor das pequenas e médias empresas são manifestamente baixos pelo que se coloca o desafio de “Fazer mais e melhor otimizando o tempo investido”.
No que se refere às SROC Unipessoais, a sua extinção decorrente da obrigação de pluralidade de sócios na constituição das empresas de auditoria, trouxe como consequência o aumento dos recursos técnicos necessários às novas entidades, criadas através de transformação ou fusão.
A supervisão de auditoria ocorreu com a entrada em vigor do novo Regime Juridico de Supervisão de Auditoria (RJSA) que extinguiu automaticamente o Comité Nacional de Supervisão de Auditoria (CNSA), passando todas as suas competências e funções para a CMVM.
A atribuição à CMVM da competência da supervisão de auditoria levantou questões de independência face a outras atribuições desta entidade, nomeadamente, a supervisão das sociedades emitentes de valores mobiliários, e ainda problemas de conflitos de interesse entre a sua função de supervisor e regulador. Contudo e atendendo a que a qualidade da auditoria traz importantes contributos à credibilização do exercício da profissão, acredita-se que o exercício de Supervisão no atual modelo possa trazer melhorias significativas na qualidade das auditorias provavelmente com mais visibilidade ao nível interno dos auditores do que propriamente para o mercado.
Dois anos e meio após a entrada em vigor do novo regime jurídico da auditoria e do início de funções da CMVM como supervisor de auditoria, conforme comunicação da Presidente da CMVM, houve empenhamento quer pela sua parte quer por parte da OROC no sentido de serem diluídas dúvidas geradas por esta mudança sempre com o objetivo de criar um clima de confiança reciproca e sem perder de vista aquela que é a função e missão da OROC e da CMVM.
O papel fundamental da CMVM foi aumentar o rigor e exigência nos processos de controlo dos trabalhos de auditoria nas EIP (controlo direto) e ENIP (delegação atribuída à OROC) que se entendem como fatores críticos para a melhoria da qualidade de auditoria.

4. A auditoria conjunta não chegou a ser incluída nas novas regras. Deveria ter sido?

De acordo com o texto legislativo, a adoção de auditorias conjuntas (join audits), previstas na Diretiva 2014/56/EU e no Regulamento (UE) n.º 537/2014, permite reforçar o ceticismo profissional, a capacidade de questionar, e consequentemente a qualidade da auditoria bem como a própria independência do auditor. Por outro lado e uma vez que o setor de auditoria é altamente concentrado esta seria uma excelente oportunidade para combater a referida concentração, desde que se criassem condições para gerar oportunidades no acesso às empresas de auditoria de segmento médio a auditorias em grandes clientes classificados como Entidades de Interesse Público.
5. Como vêm o tema das sociedades multidisciplinares? Devia ser permitido criar firmas com vários profissionais, nomeadamente auditores, advogados e consultores?
O exercício da atividade de auditoria em conjunto com outras profissões julgo que poderia ser permitido num contexto de rede, mantendo a independência das sociedades especializadas, salvaguardando naturalmente as questões de independência e o cumprimento rigoroso dos códigos de ética inerentes a cada profissão nomeadamente, auditoria e advocacia.
Também neste âmbito se coloca o tema do tipo de organização das empresas de auditoria. As sociedades médias de auditoria precisam de introduzir fatores competitivos na forma como atuam para obterem uma melhor posição de mercado. Uma oferta de serviços mais abrangente permitiria por um lado uma melhor solidez dessas empresas e um serviço mais completo e mais abrangente junto das pequenas e médias empresas que na realidade para se tornarem competitivas no mercado Português precisam para além de auditoria, de outros serviços especializados de valor acrescentado que permitam o seu processo de crescimento e profissionalização.
6. Nos últimos anos houve vários escândalos financeiros que minaram a confiança dos investidores em várias grandes cotadas nacionais. Que balanço fazem do papel desempenhado pelas firmas de auditoria nesses casos? Consideram que, atualmente, há menos risco de essas situações voltarem a suceder?
Quando ocorre um escândalo financeiro numa Entidade, normalmente decorrente de gestão fraudulenta, é muito provável que a opinião pública questione o papel dos reguladores e auditores no exercício das suas funções, criando problemas ao nível da reputação dessas entidades. Os procedimentos de auditoria não garantem em absoluto (mas sim a um nível aceitável) que as demonstrações financeiras possam estar isentas de distorções materiais, uma vez que são usadas técnicas de amostragem existindo assim riscos de auditoria. As fraudes podem ocorrer e a não serem detetadas colocam os auditores num papel ingrato quer perante os agentes de mercado quer perante os supervisores. Os trabalhos realizados por essas firmas de auditoria foram por certo submetidos a processos de controlo, por parte dos supervisores de auditoria, no sentido de serem apuradas as devidas responsabilidades.
Os escândalos financeiros ocorreram praticamente em todo o mundo inicialmente despoletados pela crise no mercado imobiliário e posterior crise financeira com consequências graves ao nível das empresas do setor financeiro. Esta situação veio a questionar e de uma forma muito profunda as conclusões dos trabalhos de auditoria. A resposta foi aumentar a regulamentação que já por si era exigente, mas não suficiente para evitar situações que ocorreram durante os períodos de crise.
Naturalmente que a adoção dos novos regulamentos do exercício da profissão bem como da sua supervisão tem como objetivo minimizar o risco de auditoria no sentido de melhorar a qualidade dos trabalhos e em simultâneo reforçar a credibilidade do auditor.